terça-feira, 6 de outubro de 2009

MUDAR DE VIDA




O pobre homem ingressou no consultório médico carregando os males do mundo. Era portador de incontáveis sintomas.
Queixava-se de tudo. Tinha manchas vermelhas no peito, espasmos no ventre, dormência nas extremidades de pés e mãos, aceleração dos batimentos cardíacos, secura nos olhos e na boca, uma tosse insistente ao despertar, que se ausentava durante o dia e voltava ao cair da tarde.
Também sofria de dores por todo o corpo, fisgadas, agulhadas, ardências, cólicas e, acima de tudo, aquela dor difusa que não se fixa em lugar algum da geografia humana e muda sempre de lugar, deixando o paciente confuso na hora de apontar, ao doutor, onde dói.
O médico o observava com impaciência e não via a hora de poder tomar conta das ações, usar da palavra, despejar sobre ele incontáveis pedidos e requisições de exames e despachar o sobrevivente que, por seu estado, pelas avarias que tinha, talvez nunca mais retornasse.
Ressonância, tomografia, ultrassom, radiografia, exames de todos os tipos ele fez. Esperava o pior : uma grave doença, trágicas moléstias, exigência de internação, árduos tratamentos, complicadas terapias... Mas os exames e laudos revelaram que ele era dotado de uma saúde de ferro.
Ninguém podia acreditar que suas dores e sintomas não o condenavam à obtenção de um atestado de óbito.
O médico olhou tudo e disse: “ Vou lhe dar um antidepressivo. Seu problema é depressão. Os sintomas são esses e mais alguns outros, ainda inimagináveis”.
“ Mas eu não estou deprimido”, disse-lhe o paciente, “Não me tranco em casa, não choro sem nenhum motivo e nem mesmo choro por motivo algum. Não permaneço enfurnado num quarto escuro, nunca tentei o suicídio...”.
“Mas não é necessário tudo isso para haver depressão. Ela pode aparecer até mesmo disfarçada de euforia, de um estado crônico de júbilo. A pessoa tem fome, tem apetite sexual, canta, dança, conta anedotas, ri à toa, vive mergulhada em um absurdo otimismo. Mas mesmo com tudo isso, o caso é de depressão”.
Então, o homem deixou o consultório, levando com ele oos mesmos sintomas com que ali entrou, carregando suas dores e as mesmas queixas. Mas comprou o remédio e começou a tomar, mesmo depois de ler a bula, que tinha a dimensão de uma página de jornal e, em sua maior parte, era ocupada por advertências sobre efeitos colaterais e reações adversas absolutamente fatais.
Se não lhe desse cabo de vida, e se ele tivesse sorte, talvez o remédio pudesse não lhe fazer efeito algum. Mas após ingerir a droga durante duas semanas, ele estava, surpreendentemente, vivo ! E curado! Via-se absolutamente salvo de dores, manchas, tremores, arrepios, cólicas, dormências e do restante de seus trágicos sintomas.
Tinha depressão sem se sentir deprimido. Começou a pensar se não seria melhor afastar as causas da depressão, ao invés de seguir com o remédio e arriscar-se aos apocalípticos efeitos colaterais.
Resolveu abolir as causas.
Mas, tragicamente, viu que tinha que mudar tudo. Mudar o mundo, mudar de vida, mudar de ofício, mudar de país, mudar de sexo, mudar de posição, mudar o rumo, mudar o caráter, mudar as regras, mudar de canal, mudar de rotina, mudar o vento, mudar de lado, mudar o que muda, mudar o que não muda...


Então, ele decidiu decidir : ou continua com o remédio ou recebe seus males e suas dores de volta.

(Vicente Cascione)

Um comentário:

  1. Eu decidi já tem algum tempo: continuo com o remédio.
    Bjus
    Carmen

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Obrigada, fico feliz em ver você por aqui.